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Café Poesia

Um pouco de poesia com cheirinho a café

Corrupção

Ilustração de Marc Hanniet

 

Mergulhei sem censura no teu corpo,
Na ingenuidade de ser apenas um momento.
Mas perdi a noção e a nitidez,
Olhei para o interior dos teus olhos,
Sem imaginar sentir tamanha avidez!
E no teu abraço me perdi...
E no teu beijo morri...
E na tua alma escondi a minha...
E no teu corpo quente me corrompi!

 

Entreguei-te o meu desejo,
E perdi a noção e a consciência.
Do precipício atirei-me sem medo, 
E caí... Levantei-me e atrás de ti corri.
E caí... E cairei enquanto me permitires, 
As vezes necessárias até que me peças
E me despeças do meu papel indefinido.
Dos teus sentimentos indefinidos.
Dos teus intensos beijos sentidos. 
Dos teus abraços fortes proibidos. 

 

Perdi-me em ti com a inocência da primeira vez,
Entreguei-me sem amarras, discernimento ou lucidez.
Perdi-me de mim, dos meus princípios, da moral,
Despi-me dos preconceitos, dos julgamentos. Escolhi o irracional.
Vesti-me de emoções, de alegria, de satisfação.
E o momento que seria só um momento, um momento só não foi,
E eu que te daria apenas o meu corpo,
Dei-te o meu coração que por tanto te querer, dói!

 

ano: 2019

De mim

NISCHITHA SN.JPG

Ilustração de Nischitha Sn

 

 

Sobressais o pior de mim:
A minha raiva mais vincada,
A minha lágrima mais salgada,
O meu olhar mais solitário,
O meu lábio mais carregado.
Até que me sorris...
E aí tudo passa,
E tudo se desvanece,
E todo o meu corpo estremece.

 

Fazes sobressair a minha amargura,
E enches-me de solidão,
E amarfanhas a minha alma. 
Emburreces o meu coração!
Até que me olhas com a tua ternura... 
E aí tudo se transforma,
E o meu coração aquece, 
E de amor e palpitações se preenche. 
E o discernimento se disforma! 

 

Empobreces-me a coerência,
Embruteces-me os modos,
Devolves-me sem perceber a inocência,
Que me faz cair sem perceber nos teus engodos
Dando-me vontade de te abandonar.
Até que dizes "fazes-me falta",
E os teus olhos brilham em busca dos meus,
E meu coração rejuvenesce,
E afasta a vontade de te dizer adeus!

 

ano: 2019

Poderia morrer nos teus braços que morreria feliz

Ilustração de Nik Helbig

 

 

Poderia morrer nos teus braços que morreria feliz.
Mesmo que teu beijo não me reanimasse,
Nem teu abraço me suportasse.
Poderia morrer nos teus braços que morreria feliz!

 

Só não posso morrer nos teus olhos, nem no teu beijo,
Não suportaria ver o desencanto, ou fraco desejo, 
Não aguentaria seguir a teu lado e tão distante,
Não aguentaria seguir e não te ter, doravante!

 

Poderia calar para sempre minha voz que a calava feliz,
Se isso significasse para sempre estar em teus olhos,
Mesmo que mais não te segredasse ao ouvido o meu desejo. 
Poderia calar para sempre minha voz que a calava feliz. 

 

Só não posso deixar de te ouvir ou sentir,
Não suportaria sentir a tua ausência, ou o teu desprezo, 
Não aguentaria seguir a teu lado e tão distante,
Não aguentaria seguir sem sentir o teu olhar provocante.

 

Eu não quero morrer ou calar,
Nem deixar de te sentir, ou deixar de te olhar,
Mas como o destino não podemos combater,
Preparo-me para esse dia em cada entardecer. 

 

ano: 2018

Antes

Ilustração de Daehyun Kim

 

 

Ama muito, antes. 

Beija intensamente, antes.

Sente tudo sem reservas, antes.

Deseja apaixonadamente, antes.

 

Depois não faças nada, 

Porque o depois já passou. 

O depois já não existe. 

Quando chegar o depois... Acabou!

 

ano: 2018

Monstro

dalmationdream_kirbifagan_web.jpg

Ilustração de Kirbi Fagan

 

 

Tenho um monstro que grita na minha barriga,

Volta e revolta e não me deixa descansar.

Amarfanha-me os sonhos, baralha-me as memórias,

Só para me levar novamente a errar!

 

Tenho um monstro que grita na minha barriga,

Tira-me o tapete, atira-me ao chão.

Rouba-me as verdades, tolda-me a visão,

Só para me fazer refém das suas vontades!

 

Tenho um monstro que grita na minha barriga,

Tapa-me a boca, sufoca-me a alma.

Aterroriza os meus dias, amarga as minhas noites,

Só para me fazer perder a calma!

 

E de repente... Silêncio!

Já não se ouve o monstro que gritava na minha barriga.

Em silêncio, escutamos apenas o vazio que deixou...

E o eco das questões que forçou!

 

E que faço eu agora?

Como viver sem a alegria da ansiedade chata?

E quem sou eu agora?

Como viver com esta apatia que lentamente mata?

 

Há monstros que nos ajudam a viver...

Porque parar de sentir é simplesmente morrer...

 

ano: 2018

Olhares

Ilustração de Sophie Griotto

 

E se os nossos olhares se cruzarem e tu perceberes...

E se tu sentires... E se tu desejares!

E se os nossos olhares se cruzarem e tu perceberes...

Que não olho só... Que não desejo só!

 

E se os nossos olhares se cruzarem e fixares o meu desafiante,

Irei desviar o meu, como um engano, como um acaso ou coincidência.

Não te darei o gosto da descoberta. Ou o meu gosto. Para o meu gosto.

Reprimirei o desejo como uma aprisionada essência.

 

E se comigo falares irei aparentar calma,

Não te darei o gosto de me veres atrapalhada.

Calarei a vibração vocal do nervosismo por te falar.

E se me provocares... Rirei!

 

E se te aproximares demais, falarei mais alto e rirei ainda mais alto,

Calarei o alto crepitar que restolhará do meu peito.

Apoiarei as mãos para que não as vejas tremer.

Anularei a respiração para que não a sintas acelerar.

 

E se tudo isto não for suficiente para esconder,

Aprenderei a viver com a tua descoberta. 

Assim como tu aprendeste a viver quando eu te descobri.

Vivamos assim a cruzar os olhares, que escondem desejos sublimares!

 

ano: 2018

Se me tivesses ouvido (mesmo não me escutando como gostaria)

Ilustração de Herbert Ponting

 

 

Percorro o mundo de olhos vendados,

Para nada ver...

Fujo de mim,

Para me esquecer...

 

Nada faz sentido já,

Agora são apenas meras palavras,

Meras palavras de sonhos,

Que outros se recusaram a ouvir!

 

Não peço que as escutem,

Mas que as ouçam só!

Nem que não as entendam,

Nem que não lhes metam dó!

 

E tu?

Porque não me ouviste?

Porque não fingiste te importar?

Tudo teria sido tão diferente...

 

Do mesmo modo que a criança foge para a margem

Do rio por medo de se afogar

Eu fugi de ti,

Não por medo de te amar, mas por medo de sufocar!

 

Aparentemente amigos não te faltam.

Ai, quantos riachos correm para o socorrer...

Quantos riachos carregados de veneno,

Correm para o ver morrer!

 

E assim és tu,

Tão cínico e falso como o riacho que corre,

Que socorre de faca em punho escondida,

Sem amar, sem sentir, sem acreditar!

 

Um dia terminarás como um rio seco

Em dia de verão em pleno Alentejo...

Seco pelo teu amor próprio!

Sem amigos... sem amor... sem mim!

 

Assisto vangloriosa à tua queda,

Aproximar-me-ei um dia da tua porta,

Para saber que sofres...

Para saber que desejavas ter escutado,

As palavras que um dia pronunciei!

 

Sinto-me vingada,

Passaste por tudo aquilo que passei,

E agora, na minha cabeça apenas uma pergunta desanimada:

"Sou feliz?"

 

Assim sou eu: Tão viva que salto por entre os outros;

Tão morta que carrego veneno que mata;

Tão falsa e alucinada, que faço aos outros,

Aquilo que não gostei que um dia,

Tivesses feito comigo!

 

Se me tivesses ouvido,

(Mesmo não me escutando como gostaria),

Seriamos como o rio que corre para o vivo mar,

E não os riachos que o envenenam,

Para dele se vingar!

 

ano: 2009

Soberania

  Ilustração Harumi Hironaka

 

Irrita-me a tua arrogância plena,

Tua altivez descontrolada,

Vagueando pelas ruas, soberana,

Confiante que por todos és estimada!

Agitas os doirados cabelos,

Olhando o mundo com superioridade,

Surpreendes todos por esconderes

Nessa cara de anjo, tamanha maldade!

Escondes por trás desse profundo olhar,

Azul olhar, de gata amansada,

Toda a inveja que tens bem guardada,

Daqueles que um dia te ousaram enfrentar!

Julgas-te perfeita,

Sem nenhum mal…

E por isso,

Irrita-me a tua perfeição,

A tua definição de beleza,

Irrita-me teu coração,

Por conter tamanha frieza!

 

ano: 2008

Memórias

Ilustração de Pacaud Julien

 

 

Recordo como o teu cheiro se entranhava

Na minha roupa, como me atordoava

A alma e me corrompia o pensamento

E o discernimento de escolher para mim.

 

Revejo fotos, limpo os olhos das lágrimas,

Martelo a alma e culpo o corpo,

Da cobardia de outrora, da falta de estima,

Da tentativa falhada de ser feliz.

 

Tropeço agora em ti por acidente,

Recordo por isso as alegrias e os choros

Que à noite perigosamente me trazias.

Todos os sonhos que inconscientemente desfazias.

 

Pergunto-me o que é que será de ti.

 

ano: 2016

Vida Malvada

Ilustração de Arthur Rackham

 

 

Vida malvada,

Que tanto fazes sofrer!

Ou são pais que se matam,

Ou amigos a desaparecer!

 

Vidas que se destroem,

E vidas que se acabam por esquecer!

Orgulhos que sobem…

E que nunca irão descer!

 

Feridas que perduram,

Que sempre me fizeram sofrer.

Lágrimas que me vão matando,

Desde que decidi nascer!

 

Parece que vivo num jogo,

Só espero dele um dia conseguir fugir.

Fugir desta maldita vida,

Que não para de me ferir!

 

ano: 2008

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Ilustração de Sophie Griotto

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