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Café Poesia

Um pouco de poesia com cheirinho a café

Antes

Ilustração de Daehyun Kim

 

 

Ama muito, antes. 

Beija intensamente, antes.

Sente tudo sem reservas, antes.

Deseja apaixonadamente, antes.

 

Depois não faças nada, 

Porque o depois já passou. 

O depois já não existe. 

Quando chegar o depois... Acabou!

 

ano: 2018

Monstro

dalmationdream_kirbifagan_web.jpg

Ilustração de Kirbi Fagan

 

 

Tenho um monstro que grita na minha barriga,

Volta e revolta e não me deixa descansar.

Amarfanha-me os sonhos, baralha-me as memórias,

Só para me levar novamente a errar!

 

Tenho um monstro que grita na minha barriga,

Tira-me o tapete, atira-me ao chão.

Rouba-me as verdades, tolda-me a visão,

Só para me fazer refém das suas vontades!

 

Tenho um monstro que grita na minha barriga,

Tapa-me a boca, sufoca-me a alma.

Aterroriza os meus dias, amarga as minhas noites,

Só para me fazer perder a calma!

 

E de repente... Silêncio!

Já não se ouve o monstro que gritava na minha barriga.

Em silêncio, escutamos apenas o vazio que deixou...

E o eco das questões que forçou!

 

E que faço eu agora?

Como viver sem a alegria da ansiedade chata?

E quem sou eu agora?

Como viver com esta apatia que lentamente mata?

 

Há monstros que nos ajudam a viver...

Porque parar de sentir é simplesmente morrer...

 

ano: 2018

Olhares

Ilustração de Sophie Griotto

 

E se os nossos olhares se cruzarem e tu perceberes...

E se tu sentires... E se tu desejares!

E se os nossos olhares se cruzarem e tu perceberes...

Que não olho só... Que não desejo só!

 

E se os nossos olhares se cruzarem e fixares o meu desafiante,

Irei desviar o meu, como um engano, como um acaso ou coincidência.

Não te darei o gosto da descoberta. Ou o meu gosto. Para o meu gosto.

Reprimirei o desejo como uma aprisionada essência.

 

E se comigo falares irei aparentar calma,

Não te darei o gosto de me veres atrapalhada.

Calarei a vibração vocal do nervosismo por te falar.

E se me provocares... Rirei!

 

E se te aproximares demais, falarei mais alto e rirei ainda mais alto,

Calarei o alto crepitar que restolhará do meu peito.

Apoiarei as mãos para que não as vejas tremer.

Anularei a respiração para que não a sintas acelerar.

 

E se tudo isto não for suficiente para esconder,

Aprenderei a viver com a tua descoberta. 

Assim como tu aprendeste a viver quando eu te descobri.

Vivamos assim a cruzar os olhares, que escondem desejos sublimares!

 

ano: 2018

Se me tivesses ouvido (mesmo não me escutando como gostaria)

Ilustração de Herbert Ponting

 

 

Percorro o mundo de olhos vendados,

Para nada ver...

Fujo de mim,

Para me esquecer...

 

Nada faz sentido já,

Agora são apenas meras palavras,

Meras palavras de sonhos,

Que outros se recusaram a ouvir!

 

Não peço que as escutem,

Mas que as ouçam só!

Nem que não as entendam,

Nem que não lhes metam dó!

 

E tu?

Porque não me ouviste?

Porque não fingiste te importar?

Tudo teria sido tão diferente...

 

Do mesmo modo que a criança foge para a margem

Do rio por medo de se afogar

Eu fugi de ti,

Não por medo de te amar, mas por medo de sufocar!

 

Aparentemente amigos não te faltam.

Ai, quantos riachos correm para o socorrer...

Quantos riachos carregados de veneno,

Correm para o ver morrer!

 

E assim és tu,

Tão cínico e falso como o riacho que corre,

Que socorre de faca em punho escondida,

Sem amar, sem sentir, sem acreditar!

 

Um dia terminarás como um rio seco

Em dia de verão em pleno Alentejo...

Seco pelo teu amor próprio!

Sem amigos... sem amor... sem mim!

 

Assisto vangloriosa à tua queda,

Aproximar-me-ei um dia da tua porta,

Para saber que sofres...

Para saber que desejavas ter escutado,

As palavras que um dia pronunciei!

 

Sinto-me vingada,

Passaste por tudo aquilo que passei,

E agora, na minha cabeça apenas uma pergunta desanimada:

"Sou feliz?"

 

Assim sou eu: Tão viva que salto por entre os outros;

Tão morta que carrego veneno que mata;

Tão falsa e alucinada, que faço aos outros,

Aquilo que não gostei que um dia,

Tivesses feito comigo!

 

Se me tivesses ouvido,

(Mesmo não me escutando como gostaria),

Seriamos como o rio que corre para o vivo mar,

E não os riachos que o envenenam,

Para dele se vingar!

 

ano: 2009

Soberania

  Ilustração Harumi Hironaka

 

Irrita-me a tua arrogância plena,

Tua altivez descontrolada,

Vagueando pelas ruas, soberana,

Confiante que por todos és estimada!

Agitas os doirados cabelos,

Olhando o mundo com superioridade,

Surpreendes todos por esconderes

Nessa cara de anjo, tamanha maldade!

Escondes por trás desse profundo olhar,

Azul olhar, de gata amansada,

Toda a inveja que tens bem guardada,

Daqueles que um dia te ousaram enfrentar!

Julgas-te perfeita,

Sem nenhum mal…

E por isso,

Irrita-me a tua perfeição,

A tua definição de beleza,

Irrita-me teu coração,

Por conter tamanha frieza!

 

ano: 2008

Memórias

Ilustração de Pacaud Julien

 

 

Recordo como o teu cheiro se entranhava

Na minha roupa, como me atordoava

A alma e me corrompia o pensamento

E o discernimento de escolher para mim.

 

Revejo fotos, limpo os olhos das lágrimas,

Martelo a alma e culpo o corpo,

Da cobardia de outrora, da falta de estima,

Da tentativa falhada de ser feliz.

 

Tropeço agora em ti por acidente,

Recordo por isso as alegrias e os choros

Que à noite perigosamente me trazias.

Todos os sonhos que inconscientemente desfazias.

 

Pergunto-me o que é que será de ti.

 

ano: 2016

Vida Malvada

Ilustração de Arthur Rackham

 

 

Vida malvada,

Que tanto fazes sofrer!

Ou são pais que se matam,

Ou amigos a desaparecer!

 

Vidas que se destroem,

E vidas que se acabam por esquecer!

Orgulhos que sobem…

E que nunca irão descer!

 

Feridas que perduram,

Que sempre me fizeram sofrer.

Lágrimas que me vão matando,

Desde que decidi nascer!

 

Parece que vivo num jogo,

Só espero dele um dia conseguir fugir.

Fugir desta maldita vida,

Que não para de me ferir!

 

ano: 2008

Doce Veneno

Ilustração de Gabriel Marques Bertha

 

 

Santo pecado que estais em mim.

Doce veneno que me enlouquece.

Perigoso amor que não tem fim;

Por mais que se queira, não se esquece!

 

Irrompe como rocha, fura o chão.

Aumenta o batimento do coração!

Faz perder os sentidos da mente.

Faz palpitar este coração indecente!

 

Invade sem pedir licença,

Devastando tudo por onde passa!

E mal sente a sua presença,

A minha alma se estilhaça!

 

A vida segue, vai passando,

E já não me segue como seguia,

Já não vive me martirizando,

Logo agora, que já não sofria!

 

Sou então por ele esquecida...!

 

Agora, apenas um trapo envelhecido…

Velha já para nada sirvo!

E seu doce veneno abandona,

Meu corpo então adormecido;

Ficando apenas chorona,

Recordando o tempo esquecido!

 

Santo pecado que já não estais em mim.

Doce veneno que me abandonaste!

Interesseiro sonho que em mim aleitaste,

Para depois me abandonares assim…

 

ano: 2007

Ainda me Lembro

Ilustração de Alice Lin

 

 

Lembro-me do teu sorriso enquanto me olhavas,

Do teu ternurento olhar enquanto me tocavas!

Das lágrimas que sempre me provocaste,

Da mágoa e dor que me experimentaste!

 

Das palavras confusas e do constrangedor olhar,

Do maravilhoso e surpreendedor palpitar!

Da partida sentida, do olhar magoado

E do teu irritante sorriso consternado!

 

Lembro-me ainda de tontas palavras,

Do quão bela me fazias sentir!

Das traições que por te amar enfrentava,

E do perigo em que me deixavas cair!

 

Parece inacabada a nossa trágica história,

E tantos anos passaram desde então,

Mas infelizmente não me sai da memória,

As imagens que me amarfanharam o coração!

 

Infelizmente a lembrança é excessiva,

Mas a dor de te lembrar é ainda maior.

Por vezes pergunto-me se alguma vez sentiste,

O meu coração latente de dor…

 

ano: 2010

O Teatro - Duas visões, um só momento (Parte II)

Ilustração de Aitch

 

 

Visão do Artista

 

As Luzes ligam-se e o pano sobe,
O fervente sangue rodopia em círculos,
Impedindo o pensamento e a coerência.

 

Treme. Amedronta-se. Chora.
Nada é certo e real.
Tudo é relativo e inconstante.
Mordaz!

 

Sufoca.
O ar deixa de entrar vorazmente,
Criando uma sensação de dor e de desmaio.

 

Loucura.
Demência.
Tudo deixa de fazer sentido.

 

Agarra-se ao seu cheiro incandescente,
– Para tentar recordar-se de quem é –
E deixa-se desligar…
Na esperança de voltar a ser racional!

 

… E volta a dolorosa sensação de prazer súbito,
Como se outra sensação não conhecesse!
Sensação mágica. Inexplicavelmente mágica!

 

… E ferve novamente o sangue,
Apuram-se novamente os sentidos.
Entra de rompante para o palco
E brilha como um sorriso de criança!

 

Porém o jovem artista sofre e enlouquece,
Tudo o que decorara outrora, desaparece…
Desesperado decide improvisar,
Os seguintes versos que diz a chorar.

 

Já não sei rimar!
Os meus dedos perderam a voz e o talento!
Nem em verso sei chorar, já…
Nem transformar palavras em sentimento!

 

Entre soluços continua:

 

Tudo da minha mente se apagou,
As deixas… os passos…
O medo, do meu corpo se apoderou…
Restando apenas estes meros versos!

 

O palco é a minha vida,
As deixas o meu respirar,
E quando as cortinas se fecham,
Chega-me a faltar o ar!

 

Após a emotiva declamação,
Deixa o palco a correr,
Baixando o olhar envergonhado.
Até o pano finalmente o esconder.

 

Sofre. Rebenta de Raiva.
Amolece… e Chora!

 

Julga sua vida de actor terminada,
Julga não ter honrado sua avó tão amada,
Não tendo proferido os versos por ela criados,
Por ela tantas vezes pronunciados!

 

Loucura.
Demência.
Tudo deixa de fazer sentido, novamente.

 

De repente, por detrás do pano,
Ouve uma ovação em sua homenagem,
O público todo em pé a aplaudi-lo,
Pensando que encarnou bem a personagem.

 

As luzes ligam-se e o pano sobe novamente,
E o jovem actor sentindo-se amado, alegremente
Sobe para o palco com o sorriso de criança,
Desejando que aquela sensação nunca mais desapareça.

 

 

Visão do Público

 

O Público, não percebendo o engano,
Adorou a actuação,
Levantando-se com toda a ostentação.

Palmas para o artista! Palmas!

 

ano: 2010

 

Café Poesia 500px.png

Ilustração de Sophie Griotto

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